setembro 20, 2026

Conto sensual de noite de verão: o apagão que os uniu

Varanda de apartamento à noite iluminada por velas, com dois copos de vinho, durante um apagão na cidade

Um conto sensual de noite de verão nem sempre começa com um beijo; o de Marina começou com um apagão. Fazia onze dias que fevereiro transformava Santos numa panela de pressão — quarenta graus à sombra, mar parado, um ar que pesava nos ombros como cobertor molhado — e a cidade inteira parecia prender a respiração, à espera de alguma coisa que rompesse o calor. Às nove e dez de uma terça-feira, a coisa rompeu: primeiro morreram os ares-condicionados, depois os postes, depois as janelas iluminadas dos prédios, andar por andar, até restar apenas o céu baixo e alaranjado sobre o porto.

Marina desistiu do ventilador inútil, acendeu as velas de emergência que guardava desde o último blecaute e arrastou a poltrona de vime para a varanda, com a bandeja de água e o celular sem sinal ao lado. Lá embaixo, a rua fervia de vizinhos de chinelo procurando brisa que não existia; cachorros deitados no cimento, crianças acordadas demais para a hora, um som de alguém tocando violão mal e com vontade. Lá em cima, havia só o rumor distante do mar e o cheiro de cera queimando — até que uma voz atravessou a parede baixa que separava as duas varandas do corredor de incêndio.

O apagão na noite quente

— Você também perdeu o chuveiro frio? — perguntou a voz, meio rindo.

Marina se virou. Encostado na mureta ao lado, com uma garrafa de vinho tinto numa mão e dois copos plásticos na outra, estava o vizinho do 601 — o homem alto de óculos que ela cruzava no elevador havia meses sem nunca passar de um bom dia. Na penumbra, o sorriso dele parecia mais fácil do que o das manhãs apressadas.

— Perdi o jantar, o sinal e a paciência, nessa ordem — ela respondeu. — Se esse vinho tinha algum destino nesta noite, informo que o destino sou eu.

Ele riu de verdade dessa vez e, em vez de estender a mão para uma apresentação formal, ergueu a garrafa como quem propõe um pacto. Rafael tinha trinta e cinco anos, era chef de um restaurante na orla que fechara cedo por causa da falta de luz, e a folga inesperada lhe dera uma leveza de adolescente fugindo da aula. Marina tinha trinta e dois anos, designer gráfica, recém-saída de um relacionamento morno que levara dois anos para esfriar de vez — e carregava uma regra antiga herdada da avó: jamais deixar um bom vinho morrer de solidão durante um apagão.

Com a permissão dela, ele contornou o corredor de incêndio e apareceu do outro lado da porta de correr, trazendo além do vinho um pão de queijo embrulhado em pano de prato, sobrevivente do turno interrompido. Sentaram um de frente para o outro na varanda estreita, com os joelhos quase se tocando, e conversaram como quem descarrega o dia: o calor, os clientes, o elevador social que sempre parava no 601 antes do 602 e por isso merecia desconfiança. Marina descobriu que ele fazia estoque de velas por superstição; Rafael descobriu que ela tinha mania de dar nome para os temporais que desciam da serra.

Em algum momento entre o segundo e o terceiro copo, ela confessou o hábito que ninguém do escritório conhecia: nas noites de calor em que o sono não vinha, lia contos sensuais no celular com a tela no mínimo, e achava aquelas histórias de desejo súbito uma literatura de ar-condicionado — bonita, porém impossível no mundo real. Naquela semana mesmo, relera duas vezes um conto sobre um encontro inesperado num casamento e uma balada antiga, e o deixara aberto numa aba como quem guarda bilhete de loteria sem conferir.

— E o que essas histórias têm de impossível? — Rafael perguntou, servindo o último copo.

— A parte em que duas pessoas se querem no mesmo instante, sem ensaio, sem mal-entendido — ela disse. — Na vida real, alguém sempre morre de vergonha antes.

Velas, vinho e palavras

Rafael pousou a garrafa no chão, e quando ergueu o rosto a leveza tinha dado lugar a uma seriedade mansa.

— Antes de qualquer coisa, e falando sério: uma palavra e a noite volta a ser só conversa — ele disse. — Sem ressentimento, sem cobrança, sem noite estranha no elevador amanhã. A gente para quando qualquer um dos dois quiser parar.

— Combinado — Marina respondeu. E depois, olhando nos olhos dele por cima da chama baixa da vela: — Eu quero, se você também quiser.

— Quero desde o primeiro bom dia no elevador — ele disse. — Só faltava coragem e um blecaute.

Não era impulso nem acidente de calendário: eram dois adultos que se escolheram em pleno fevereiro, com as regras ditas em voz alta antes do primeiro toque, do jeito que Marina nunca tinha vivido e sempre desconfiara que existisse. Talvez fosse por isso que, quando os dedos dele encontraram o braço dela, a pele respondeu como quem esperava por aquilo há onze dias de calor.

O primeiro beijo aconteceu na varanda do sexto andar, entre velas, o copo vazio esquecido no parapeito e o rumor da rua que começava a se recolher. Foi lento da primeira vez, quase uma pergunta; e da segunda em diante, deixou de ser. A mão de Rafael subiu pelas costas dela por cima do tecido leve do vestido, e Marina puxou o colarinho da camisa dele com a urgência de quem desamarra um nó antigo. O calor que a cidade lançava sobre eles dois já não era incômodo: era combustível.

— Varanda é lugar de conversa — ela murmurou contra a boca dele. — E a conversa acabou de ficar muito boa.

Atravessaram o corredor apagado, de mãos dadas, rindo baixo como se o escuro pedisse discrição, até o quarto de janelas abertas, onde a brisa rala da noite finalmente tinha coragem de entrar. O calor virou desculpa para cada peça de roupa abandonada fora de lugar, e cada peça fora de lugar virou motivo para mais um beijo. Rafael deitou beijos devagar no pescoço dela como quem prova um molho no ponto; Marina respondeu com as unhas curtas desenhando círculos nas costas dele, e o mundo lá fora — o porto, o bairro escuro, os postes mortos — ficou do tamanho de um detalhe irrelevante.

Fizeram amor com a janela aberta para a noite de verão, primeiro com a pressa contida de quem espera há meses, depois de novo, sem pressa nenhuma, conversando pelos cotovelos, interrompendo um ao outro para rir de nada. Entre uma vez e outra, Rafael repetiu a pergunta e Marina respondeu sempre com a mesma palavra inteira; o consentimento não era uma assinatura única, era um fio que os dois mantiveram esticado a noite toda, pronto para ser puxado em qualquer direção.

A manhã depois da noite

A luz voltou às seis e quarenta da manhã, primeiro num estalo dos postes, depois num coro de geladeiras celebrando pela rua inteira. Marina acordou com o ventilador girando sozinho no teto, o lençol emбордado no pé da cama e o cheiro de café coado vindo do fogão a gás — Rafael tinha encontrado o pó, o coador e a PANELA certa sem quebrar nada, o que no apartamento dela constituía fato histórico.

Ela apareceu na porta da cozinha vestindo a camisa dele, e os dois encararam a cidade iluminada pela janela como quem confere o resultado de uma aposta. Os vizinhos já se reuniam na calçada para a metricação do blecaute: quantas horas, quem perdeu o que, quem dormiu onde. Ninguém precisava saber que, no sexto andar, o apagão tinha rendido a melhor noite de fevereiro de muitos anos.

— Não quero que isso vire história de uma noite só — Rafael disse, servindo o café. — Amanhã eu cozinho. Na verdade, hoje eu cozinho, porque já é hoje. Se você quiser.

— Se eu quiser — Marina repetiu, provando a frase como quem provoca vinho. — Quero. E quero também decidir o cardápio.

Eles trocaram mais do que números de telefone naquela manhã: trocaram promessas pequenas, do tipo que se cumpre, e uma data para a próxima noite de calor — porque fevereiro em Santos, os dois sabiam, ainda tinha muito estoque. Para quem gosta de noites de verão que viram outra coisa, vale a pena ler também a história do fim de festa inesperado que se tornou a última noite de verão no Rio.

O apagão durou pouco mais de nove horas; o que começou dentro dele, Marina e Rafael combinaram de descobrir ao longo de muitos outros serões. A cidade inteira voltou a luz, o elevador social voltou a parar primeiro no 601 — mas, dessa vez, havia sempre alguém esperando a porta abrir.