agosto 21, 2026

Conto Sensual: Uma Noite de Verão sem Eletricidade

Casal adulto conversa em varanda iluminada por velas durante blecaute em noite de verão

A noite de verão que ninguém naquela rua esqueceu começou com um estalo seco no transformador da esquina. Cecília, trinta e dois anos, arquiteta que passava os dias corrigindo medidas alheias, tomava água gelada na varanda do quarto andar quando a cidade apagou às nove e quarenta. Primeiro morreram os postes da avenida. Depois, um a um, os prédios apagaram as janelas, como se alguém recolhesse o dia por ordem de andar. Sobraram o zumbido distante de dois geradores, o luar lavando as antenas e um calor de janeiro que não pediu licença para entrar.

Dentro do apartamento, Murilo, trinta e cinco anos, professor de história com mania de cronometrar tudo, largou o livro no sofá e foi procurar velas na gaveta das coisas sem categoria — aquela onde moram pilhas gastas, cartões de visita e cordões sem função nenhuma. Encontrou três velas brancas e um isqueiro de gás duvidoso. Quando a chama subiu, ele ergueu os olhos e viu Cecília recortada contra uma cidade inteira apagada, e pensou que havia cenários que nenhum projeto de iluminação conseguiria planejar melhor.

Nota editorial: todos os personagens deste conto são adultos (18+), as cenas são consensuais e o consentimento é explícito e reversível, como fica dito em voz alta pelas próprias personagens.

A Cidade Que Apagou

O calor não negociava. O ventilador de teto, morto como tudo o que dependia de fio naquela noite de verão, virou um enfeite caro e inútil. Murilo trouxe da cozinha a jarra de limonada que Cecília havia preparado antes do escuro — sem uma gota de álcool, porque nenhum dos dois queria a noite turva; queria a noite inteira, nítida, lembrada nos mínimos detalhes — e os dois sentaram no chão da varanda, encostados no parapeito baixo, pernas esticadas sobre a cerâmica que ainda guardava um resto de frescura.

— Lembra do nosso primeiro apagão? — perguntou Cecília, servindo os dois copos.

— Aquele em que a gente fez pipoca no fogão e você garantiu que era mais rápido do que micro-ondas?

— E era.

— A pipoca queimou, Ceci.

— A pipoca foi um preço justo pela vitória.

Murilo riu, e o riso dele no escuro tinha outro timbre, sem a televisão competindo, sem o celular apitando. Dois anos de relação, e ele nunca tinha ouvido direito o som do próprio casamento de horários. Cecília percebeu a mesma coisa nele: a maneira como ele se recostava no parapeito, os ombros finalmente largos, o professor de história sem nenhuma aula para dar até segunda-feira. O blecaute tinha feito o que as férias adiavam: parou o mundo em volta deles.

— Sinto falta disso — ela disse, sem encenação. — De te ouvir sem pressa.

— Eu também. A gente marcou poucas coisas nesses últimos meses.

— Então vamos marcar agora. Hoje não tem onde chegar.

Foi ela quem estendeu a mão e pousou os dedos no antebraço dele, devagar, do jeito quem pede licença com o corpo antes de pedir com a boca. Murilo virou o pulso e segurou a mão dela entre as suas.

— Pode me interromper a qualquer hora — ele disse. — Eu aviso o mesmo.

— Combinado. — Ela sorriu no escuro. — Regra de ouro da noite de verão.

Quando o calor apertou de novo, Murilo buscaram a mangueira de regar as samambaias. A mangueira aberta sobre a varanda desenhou um arco prateado sob o luar, e a água morna dos primeiros segundos, depois deliciosamente fresca, escorreu pelos braços de Cecília, colou a blusa de linho às costas dela e arrancou um grito de riso que nenhum vizinho iluminado pôde testemunhar. Murilo aproximou o polegar e afastou uma mecha molhada da bochecha dela.

— Posso? — perguntou, a boca a um palmo da dela.

— Pode — ela respondeu, e foi ela quem fechou os últimos centímetros.

O beijo tinha gosto de limão e de água de mangueira. Durou o tempo de uma cidade inteira continuar apagada, e quando terminou, nenhum dos dois tinha pressa de recomeçar: havia combining melhor a fazer, que era ficar ali, testas encostadas, ouvindo o próprio fôlego baixar.

A Luz da Vela

Foram para dentro devagar, guiados pela chama que Murilo carregava com a mão em concha. No quarto, ele pousou a vela acesa no pires branco da cômoda, e a luz pequena desenhou no teto um círculo que tremia a cada respiração dos dois. Cecília parou ao lado da cama, com a blusa de linho ainda úmida grudada ao corpo, e não desfez o nó do olhar que os dois mantinham.

— Eu quero isso — ela disse, claro e sem vergonha. — E se em algum momento eu disser basta, a gente para. Sem drama, sem segundo significado.

— A qualquer hora — Murilo respondeu. — E serve para mim também. É só falar.

— Então vem.

Ele atravessou o quarto sem desviar os olhos. Desabotoou a blusa dela um botão por vez, com a paciência de quem lê documentos antigos, e Cecília deixou, observando o rosto dele à meia-luz: a concentração, o sorriso curto quando o tecido cedeu, o cuidado com que dobrou a peça e a pôs na cadeira, porque até no escuro Murilo era incapaz de jogar roupa no chão. Ela riu disso, e o riso desarmou os dois.

A cama recebeu os corpos como quem conhece o caminho. Murilo beijou o ombro dela, a curva do pescoço, o vão da clavícula onde uma gota da mangueira ainda insistia. Cecília enfiou os dedos no cabelo dele e puxou com firmeza gentil até os olhos dos dois ficarem na mesma altura.

— Devagar — ela pediu. — A noite é longa e a luz é pouca. Quero ver tudo.

— Como a senhora arquiteta mandar.

— Projeto aprovado — ela sussurrou contra a boca dele. — Sem revisões pendentes.

A vela no pires branco assistiu a tudo com a única honestidade das chamas: sem pressa, sem julgamento. Murilo percorreu Cecília com as mãos abertas, como quem releva um terreno que vai construir por dentro, e ela se permitiu ser lida em voz alta — porque ele perguntava, e ela respondia com o corpo e com palavras, aqui, assim, não pára, e a conversa era parte do prazer, não um intervalo dele. Quando o desejo apertou demais, foi ela que ditou o ritmo, sentada sobre ele, as mãos dele nos quadris dela como quem segura algo precioso e vivo, os dois olhos nos olhos enquanto a cidade, lá fora, continuava sem luz nenhuma para competir.

Vieram juntos devagar, primeiro ela, segurando o pulso dele contra a boca para não acordar o prédio inteiro, depois ele, com um gemido grave que a chama da vela pareceu absorver, encurvando-se por um instinto que durou séculos e segundos.

Depois, o silêncio cheio. O suor esfriando devagar, o lençol embaraçado nos pés, a respiração dos dois encontrando de novo o compasso comum. Cecília puxou o peito dele para o seu ouvido e ouviu o coração descer da montanha.

— Ainda bem que o transformador pifou — murmurou.

— Vou mandar flores para a concessionária.

Ela riu tanto que quase derrubou a vela.

Meia-Noite na Piscina

Perto da meia-noite, o calor voltou a cobrar juros. Foi Cecília quem teve a ideia, sentada na beirada da cama, penteando o cabelo com os dedos.

— A piscina do prédio. Ninguém vai estar lá. O portão é de chave, a água é nossa por direito condominial.

— Isso é uma péssima ideia — disse Murilo, já procurando as chaves no cachimbo da porta, o que significava que era uma ideia excelente.

Desceram de mãos dadas pelo escuro da escada de serviço, com a toalha pendurada no ombro dele e a lanterna do celular — três por cento de bateria, o suficiente para a travessia — apagada assim que o clarão azulado da água apareceu entre as colunas do térreo. A piscina às escuras à meia-noite era outra coisa: um quadrado de lua líquida, cheiro de cloro morno e verão, o silêncio do condomínio inteiro dormindo atrás das persianas.

Cecília soltou a camiseta dele e mergulhou primeiro, sem cerimônia, abrindo a água em duas pernas abertas. A água morna recebeu o corpo dela como um lençol recém-tirado do sol. Quando emergiu, jogou o cabelo para trás e viu Murilo parado na borda, só de short, observando-a com um sorriso desarmado.

— Entra logo ou vou começa a nada sem você — ela avisou.

— Isso foi uma ameaça?

— Foi uma promessa.

Ele entrou em deslizamento suave, e a distância entre os dois fechou sozinha, por atração de corpos d’água. Nadaram um pouco, de lado a lado, competindo sem admitir, parando na parte rasa onde o pé alcançava o piso antiderrapante e a água ficava na altura do peito dela, do queixo dele.

— De novo? — perguntou Murilo, as mãos já na cintura dela, debaixo d’água, sem avançar além do permitido.

— De novo — disse Cecília. — Mesma regra. Basta é basta, para qualquer um dos dois.

— Sempre.

Foi mais lento que da primeira vez, molhado de outra água, com o luar substituindo a vela e o som da cidade reduzido a grilos e ao refluxo miúdo batendo nas bordas. Cecília enrolou as pernas no quadril dele, os braços no pescoço dele, e mururou no ouvido de Murilo o que queria, palavra por palavra, porque combinado em voz alta era a forma dele e dela de dizer que se importavam. Ele atendeu cada palavra como quem cumpre cronograma sagrado. Quando o prazer chegou, chegou nos dois quase junto, subindo pela água morna, e os dois ficaram parados um longo minuto, frontes encostadas, o condensado do hálito misturando-se ao cheiro de cloro.

Depois ficaram flutuando de mãos dadas, olhando o céu que o blecaute tinha devolvido à cidade — mais estrelas do que Cecília via desde a infância no interior, a Via Láctea riscada de leve como giz molhado.

— Sabia que isso ia acontecer quando a luz apagou? — perguntou ela.

— Suspeitei na segunda vela.

— Covarde. Você suspeitou na mangueira.

Ao longe, na avenida, os postes piscaram duas vezes e acenderam. A cidade voltou de uma vez, janelas acendendo, ar-condicionado despertando em bloqueios, o século XXI reocupando as ruas. Os dois olharam a luz voltar de dentro da água, com uma ponta de pena.

— Podemos fingir que não vimos — sugeriu Murilo, — e ficar mais um pouco.

— Isso — disse Cecília, puxando-o para a parte funda — é a melhor proposta de engenharia que ouvi em anos.

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Para quem gosta de calor que vira desejo aos poucos, o fim de semana na praia em que um casal desperta pela primeira vez mostra o mar fazendo o papel que o blecaute cumpre nesta história. Já se o seu cenário preferido é o silêncio das horas mortas, vale voltar ao compromisso e ao desejo de uma madrugada calma, em que duas pessoas combinam os termos antes de se perder uma na outra. São todas ficções com adultos, consentimento explícito e reversível — porque o desejo bom é aquele que se combina em voz alta.