
O disjuntor do casarão de Santa Teresa pulou às duas da manhã, sem aviso nenhum, e a festa de despedida de Vera virou um fim de festa inesperado: luzes mortas, gelo derretendo no balde, quarenta pessoas tateando o chão atrás dos sapatos. Vera tinha trinta e dois anos, tinha acabado de vender o casarão herdado da avó e embarcava para Lisboa na terça, com duas malas e um contrato de dois anos numa produtora. A festa era para ser a última longa noite dela no Rio — e durou exatamente até o fusível decidir o contrário.
Foi o zelador, Seu Dalton, quem explicou de lanterna na mão: o quadro era antigo, o amplificador emprestado queimara dois disjuntores, e não dava para religar nada antes das sete, quando a elétrica abrisse. Avisado o culpado — o primo Téo, que levou o amplificador debaixo do braço feito criança expulsa da aula —, o casarão esvaziou em vinte minutos. Restaram taças sujas, velas de aniversário pela metade, uma bandeja de brigadeiro intocada e uma única pessoa: Diogo, amigo de faculdade do Téo, que começou a empilhar cadeiras na varanda com a calma de quem não tinha pressa nenhuma de descer o morro.
A festa que apagou
Diogo tinha trinta e quatro anos, era arquiteto, e tinha passado a noite inteira do outro lado do salão sem conseguir disfarçar que olhava para Vera mais do que a educação recomenda. Ela também tinha percebido — é difícil não notar, em festa onde todo mundo se conhece, o homem que ri de todas as piadas dela, inclusive das que ninguém mais achou graça. Trocaram meia dúzia de frases durante a festa, sempre interrompidos por alguém querendo brinde, foto, abraço de adeus. Ficou o resto por contar.
Com a casa escura e as velas acesas na mesa da cozinha, veio aquele silêncio tardio em que a música morreu de vez quando o disjuntor pulou, e só sobrou a cidade lá embaixo, miúda e piscando, o barulho manso de um bairro dormindo. Ele lavava as taças, ela enxugava. Conspiravam contra a bagunça como se isso justificasse cada um ficar. Conversaram de Lisboa, do medo bobo de recomeçar aos trinta e poucos, de um mercado que muda de país, de idioma e de horário, do azar de dois disjuntores queimarem justamente na noite em que alguém precisava de coragem.
— Obrigada por não ter sumido junto com todo mundo — disse Vera, quando a última taça ficou pronta.
— Eu ia. Juro que ia. Mas você me chamou pra segurar a lanterna do Seu Dalton e eu pensei: lanterna nenhuma, eu fico.
Ela riu de verdade, pela primeira vez naquela noite sem plateia para aplaudir. O riso dela desarmou qualquer plano de descer cedo. Eram dois adultos conscientes e sóbrios, e nenhum dos dois tinha dúvida do que queria: faltava apenas quem falasse primeiro, porque nenhuma das outras quarenta pessoas estava mais ali para apresentar, interromper ou dar palpite.
— Sabe o que é — disse Diogo, encostando o quadril na pia. — Passei a noite querendo conversar com você e só consegui falar sobre a reforma de um banheiro.
— Eu reparei. Você fica bonito falando de impermeabilização, mas eu preferia te ouvir falando de outra coisa.
— Que coisa?
— Qualquer uma que você escolher.
O que ficou aceso
Ele acendeu mais duas velas e sentou no chão do salão vazio, de costas para a parede onde o quadro da avó dela ainda pendurava à espera da caixa. Vera sentou ao lado, sem cerimônia, o ombro encostando no dele, os pés descalços no piso frio.
— Posso te beijar? — ele perguntou, sem rodeio, os olhos nos dela, esperando.
— Pode. — Ela respirou fundo, escolhendo as palavras. — Sim, eu quero. E se eu mudar de ideia, você para na hora.
— Na hora. E do meu lado vale o mesmo combinado, sem ressentimento nenhum.
O beijo foi devagar, como quem descobriu tempo livre. Mãos paradas, respiração contada, o cuidado de quem está combinando em vez de invadindo. Quando ela puxou a camisa dele para fora da calça, ele parou, testa na testa, e perguntou baixo:
— Ainda quer?
— Ainda. Você?
— Demais.
Fizeram amor ali mesmo, no chão do salão apagado, entre caixas de mudança etiquetadas para Lisboa e a lona das cadeiras empilhadas. Foi bom daquele jeito raro em que ninguém apressa nada: cada gesto oferecido e aceito, cada pergunta respondida com um sim que era quase um riso. O consentimento não foi burocracia de contrato, foi o fio condutor da noite — o combinado de sempre perguntar, o silêncio que ninguém interpretou sozinho, a mão que apertava e a mão que soltava.
No meio, quando a respiração de ambos apertou, ele perguntou de novo se ela ainda queria continuar, e ela disse que sim, rindo baixinho, puxando-o de volta pela nuca. Depois foi a vez dela de parar, por um instante, só para olhar — e de recomeçar quando ficou pronta, sem que ele cobrasse pressa nenhuma. Duraram o que duraram, e quando terminou restou o cansaço bom de quem sobe escada longa conversando.
Deitados na lona, cobertos pela toalha de mesa que sobreviveu ao último brinde, conversaram baixinho. Ele contou do casamento de sete anos que terminara educadamente, sem vilão; ela contou do noivado que desistira aos vinte e oito, no corredor do cartório, com a certeza gelada de quem foge no momento exato. Nada daquilo era fardo; era só o jeito de se conhecerem de verdade depois de se desejarem educadamente a noite inteira.
— Seu primo vai me odiar — disse Diogo.
— O Téo? O Téo vai dizer que armou tudo, e a gente deixa ele dizer.
Manhã de domingo
Amanheceu com o quadro elétrico religado às sete em ponto, e o casarão acordou inteiro: geladeira zumbindo, chuveiro quente, luz acesa no corredor sem ninguém para agradecer. Vera acordou com Diogo dormindo, o braço dela sobre o peito dele, e ficou um tempo comprido olhando o teto, sem pressa nenhuma de classificar aquilo. Às vezes um fim de festa inesperado é só isso: o imprevisto tirando da frente tudo o que impedia duas pessoas de se verem.
Café na varanda, o morro acordando, o bondinha subindo de ruído em ruído, o padeiro apressado descendo a ladeira com a cesta na cabeça. Nenhum dos dois forçou definição. Ela embarcava na terça; isso não era obstáculo, era calendário.
— Vou te visitar — disse ele, e não parecia frase de festa.
— Vou te cobrar. Lisboa em outubro é bonita e eu ainda não vou conhecer ninguém.
Desceram juntos até o ponto, ela com a caneca de café na mão, ele com a camisa de ontem. Trocaram números de verdade, sem juras de arrepio, e combinaram que a primeira mensagem seria dele, no dia do embarque, só para saber se o avião tinha decolado. Quando ele virou a esquina, ela ficou ainda um minuto na porta do casarão que já não era dela, acenando para ninguém — e sorriu sozinha, escandalosamente bem-disposta para alguém que tinha perdido a própria festa.
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