setembro 26, 2026

Noite de Chuva num Hotel do Porto: O Quarto com Vista

Janela de hotel embaçada refletindo as luzes da cidade do Porto numa noite chuvosa

A noite de chuva num hotel do Porto começou com um voo cancelado e uma poça de água se alastrando pelo mármore do saguão. Bia, trinta e quatro anos, arquiteta de São Paulo, atravessou o lobby arrastando a mala pequena que levaria para dois dias de congresso — o mesmo congresso que a tempestade desmontara antes da palestra de abertura, transformando palestrantes, organizadores e uma plateia inteira em hóspedes involuntários. O recepcionista pediu desculpas pela lentidão do elevador. Ela respondeu que não tinha pressa nenhuma para lugar algum. Lá fora, a cidade era uma aquarela desfocada de letreiros vermelhos e telhados escuros, e o vento dobrava os guardas-chuvas das poucas pessoas que ainda ousavam descer a Ribeira a pé.

O bar esvaziava devagar

Foi no bar que ela viu Tomás, trinta e sete anos, pela primeira vez. Ele ocupava a última mesa com tomada livre, cercado por baterias de câmera, cabos enrolados e um caderno de capa encharcada. Fotógrafo de arquitetura, tinha vindo ao Porto documentar interiores de casas antigas para uma revista, e a chuva adiava o ensaio da Foz com a mesma facilidade com que cancelara o voo dela. Quando o barman começou a recolher as últimas xícaras, restava entre eles uma mesa de distância e nenhum motivo para disfarçar o olhar. Foi Tomás quem quebrou o silêncio, erguendo a xícara na direção dela.

— O senhor da recepção me disse que o jantar acabou — ele disse. — Mas o chá, segundo ele, é infinito.

Bia riu pela primeira vez depois de dez horas de aeroporto e aceitou o convite sem cerimônia. Descobriram em seguida que dividiam a mesma língua com sotaques diferentes: ela paulistana, ele carioca, os dois de passagem por uma cidade que a chuva fechara como quem fecha um livro no meio do capítulo. Ele pediu um vinho tinto que mal tocou; ela, um chá que esfriou inteiro na xícara. Nenhum dos dois precisava de coragem emprestada.

Conversaram sobre trabalho, sobre voos perdidos, sobre a mania que os dois tinham de fotografar janelas. Ela contou que projetava escolas e que odiava paredes sem janelas; ele confessou que passara três anos fotografando somente escadas, até perceber que o que interessava nele era sempre a luz que descia por elas. Ela não acreditava muito em clima como cupido, embora uma amiga jurasse que o mau tempo numa casa de campo já fizera mais por um casal do que qualquer aplicativo de encontros. Tomás riu e contou que, no último casamento em que trabalhara, terminara testemunhando um reencontro de antigos namorados que não saía das fotos dele até hoje. O mundo, decidiram, tinha um humor próprio para coincidências.

Conversaram por quase duas horas no bar quase vazio, diante da janela embaçada, enquanto o barman desligava as luzes de mesa em mesa, diplomata de um hotel que já tinha visto de tudo. Em algum momento, a mão dela parou a poucos centímetros da dele sobre a toalha, e nenhum dos dois a retirou. Não havia mistério, nem jogo, nem pressa: eram apenas dois adultos que se desejavam e sabiam dizer isso em voz alta.

— Eu estou no 704 — ela disse, com a voz tranquila de quem anuncia um fato, não um desafio. — Você não precisa subir.

— Eu sei — Tomás respondeu. — Eu gostaria de subir mesmo assim. Se você também quiser.

A chave do quarto 704

Foi ela quem segurou a própria chave, quem abriu a porta e quem deixou a luz do corredor entrar primeiro. No elevador, entre o terceiro e o sétimo andar, ele perguntou se ela tinha certeza, e ela respondeu que sim, com os olhos nos dele, e que tinha uma regra: qualquer palavra parava tudo, de qualquer um, a qualquer momento. Ele disse que a regra valia para os dois. Apertaram as mãos como quem assina um contrato invisível, e o gesto, em vez de esfriar a noite, a acendeu.

No quarto 704, com a chuva batendo na vidraça, ela acendeu apenas o abajur. A luz desenhava na parede a sombra dos telhados do outro lado da rua, e o rio, lá embaixo, aparecia em fatias entre os prédios, escuro e inchado de chuva. Bia tirou os sapatos com um suspiro de prazer tão honesto que ele riu. Sentaram-se na beirada da cama, primeiro um pouco de lado, depois de frente — com a curiosidade dos primeiros encontros e a segurança de quem já conhecia o próprio corpo e o que fazia com ele.

Foi devagar, do jeito que os dois combinaram. Na meia-luz do abajur, ela disse sim e explicou como queria ser tocada, palavra por palavra, e ele ouviu como quem lê uma planta: sem pressa, sem adivinhar, voltando atrás quando ela pediu. As mãos dele tinham o calor de quem passa o dia entre lentes e metais; as dela, a firmeza de quem desenha paredes antes que existam. A chuva aumentou lá fora, forte demais para ser verdade, e os dois riram do exagero do clima, e o riso se misturou ao resto, sem que ninguém precisasse pedir licença.

Entre um beijo e outro, ela sussurrou basta uma vez, só para testar, e ele parou na hora exata, a mão suspensa no ar, o rosto sem uma sombra de reclamação. Um segundo depois ela o puxou de volta, e a palavra voltou a valer o que sempre valera: um mapa, não uma ferida.

A chuva não passou

A chuva não passou, e nenhum dos dois lamentou. Madrugada adentro, dividiram o último chocolate da minibar e uma garrafa de água, e Tomás mostrou no visor da câmera as janelas que tinha fotografado em três países — todas com alguém dentro, todas com uma luz diferente. Bia, que passara a vida projetando paredes, descobriu que gostava de olhar para o outro lado delas. Falaram de ex-namorados com a leveza de quem já fez as pazes com o passado, de cidades onde gostariam de envelhecer, de tudo o que se fala quando a manhã se aproxima e o mundo real bate na porta com o cartão do café da manhã.

Na manhã seguinte, o céu ainda estava baixo, o voo de reposição só sairia à tarde, e o ensaio da Foz fora remarcado para depois de amanhã. Coincidência de calendário, disseram os dois, sem acreditar muito. Tomaram o café na mesma mesa do bar, e o barman, que já tinha visto de tudo, não piscou. Bia anotou o telefone dele no caderno de capa encharcada, em letras grandes, como quem assina uma obra autoral.

— Da próxima vez — ela disse, guardando o caderno —, eu escolho a cidade.

— Chove lá em novembro? — ele perguntou.

— Como em lugar nenhum.

Ele sorriu, e a chuva, teimosa e alheia a contratos, continuou a cair sobre o Porto, sobre o hotel, sobre a janela embaçada do sétimo andar onde a noite ainda parecia inteira — como se não tivesse terminado, apenas encaminhado a próxima.