setembro 9, 2026

Noite de Verão no Apagão: Um Conto Sensual de Desejo

Velas acesas em potes de vidro sobre uma mureta de cobertura ao anoitecer de verão

Havia um calor em Lisboa que não perdoava parede nenhuma. Às nove da noite de uma terça-feira de agosto, o termômetro do quinto andar ainda marcava trinta e um graus, e Beatriz tinha desistido de qualquer tecido que exigisse justificativa. Foi nesse calor que este conto sensual de noite de verão começou — o tipo de história que só acontece quando a cidade desliga de vez e obriga as pessoas a se olharem de novo, sem telas para se esconder.

O prédio inteiro conhecia Rafael de vista: o vizinho do terceiro andar que regava as begônias às sete da manhã e que todas as noites de verão subia à cobertura com uma garrafa de água e um livro que quase nunca abria. Beatriz tinha trinta e quatro anos; Rafael tinha trinta e sete anos. Ambos eram adultos, solitários por escolha recente e curiosos um pelo outro por acumulação de pequenos gestos — o elevador quebrado dividido degrau por degrau, os acenos mudos na padaria, a vez em que ele segurou a porta do táxi sob a chuva de junho sem esperar agradecimento.

Eles nunca tinham passado de um bom-dia prolongado. Havia uma educação entre os dois que funcionava como muro baixo: dava para ver por cima, mas ninguém pulava. Até a noite em que a cidade inteira apagou.

A cidade inteira parecia funcionar por teimosia naquela semana de onda de calor: os bondes arrastavam-se como bichos velhos, os jornais publicavam fotos de fontes tomadas por crianças, e a defesa civil mandava mensagens recomendando que idosos não saíssem de casa entre as treze e as dezessete horas. Beatriz trabalhava de camiseta de alcinha desde segunda-feira, com o caderno de desenho no chão para não encostar o corpo quente na mesa. Rafael dera suas aulas de história à base de improvisação, contando sobre o grande apagão de mil noovecentos e quarenta e sete para turmas que não acreditavam que já se viveu sem ventilador. Nenhum dos dois sabia que a cidade estava prestes a ensinar a mesma lição.

O apagão e a primeira vela

O corte chegou às vinte e uma horas e quarenta e sete minutos, no meio de uma frase do audiolivro que Beatriz ouvia enquanto tentava desenhar com o mínimo de movimento possível. Primeiro morreu o ventilador, depois a luz da cozinha, depois aquele zumbido invisível que ninguém percebe que existe até que ele some. Da janela, ela viu o bairro inteiro mergulhar num azul-escuro de tinta: sem postes, sem semáforos, sem a piscada vermelha dos roteadores. Só o céu, escandalosamente estrelado, como se a cidade tivesse combinado de desligar para que ele pudesse aparecer.

Do outro lado da rua, alguém abriu uma janela e gritou algo bem-humorado sobre a companhia de eletricidade, e uma risada coletiva subiu do poço escuro entre os prédios — aquele raro momento em que vizinhos se reconhecem pela voz. Um cachorro latiu duas vezes e desistiu. Mais longe, um carro avançava devagar com o farol aceso, entrevando numa cidade que de repente tinha voltado a ter céu em vez de letreiros. Beatriz ficou um minuto inteiro parada diante da janela aberta, vendo estrelas sobre Lisboa como quem vê uma pintura removida do museu e pendurada no lugar certo.

Foi o silêncio que a tirou de casa. Sem o ruído dos aparelhos de ar dos vizinhos, o prédio inteiro parecia prender a respiração. Beatriz pegou a caixa de velas que guardava para emergências de nostalgia, acendeu duas, e subiu os dois lances de escada até a cobertura só para ver se o vento existia em algum lugar daquela cidade. Existia: uma brisa morna e rala, melhor que nada. E existia também Rafael, sentado numa mureta baixa perto do parapeito, com uma vela dentro de um pote de vidro e uma garrafa de vinho branco que obviamente estava morno havia horas.

— Adivinhei que alguém subisse — ele disse, sem se levantar, empurrando com o pé um segundo pote de vidro na direção dela. — A senhora do segundo andar já foi dormir reclamando. O resto do prédio desistiu da noite. — Eu não desisti — Beatriz respondeu, sentando-se a um braço de distância dele, o que era longe o bastante para ser educado e perto o bastante para ser honesto. — Vim negociar com o vento.

— Ventos hoje temos dois — Rafael disse, apontando o queixo para as antenas. — Um sopra do rio, cheira a salmoura e a peixe. O outro vem dos telhados, cheira a telha quente. Você pode escolher o seu. — Escolho o do rio — ela respondeu. — Sempre escolho o do rio. — Nota mental — ele disse, e foi a primeira vez que um dos dois admitiu, por escrito mental, que pretendia guardar informação sobre o outro para uso futuro.

Eles conversaram como quem tem tempo, porque tinham. Sobre o calor, que ele comparou a um erro de projeto urbano; sobre os ex, que cada um despachou em duas frases sem rancor; sobre o que se faz numa cidade sem eletricidade, que é basicamente o que se fazia em mil novecentos e cinquenta. Rafael contou que dava aula de história e que amava o período em que Lisboa ainda se iluminava a querosene; Beatriz contou que ilustrava livros infantis e que passara três meses desenhando elefantes. A luz das velas fazia todo mundo parecer mais verdadeiro — os vincos da camisa dele, o pulso dela apoiado no joelho, o vinho morno que mesmo assim desceu bem.

Em algum momento da segunda taça, a conversa parou de ser pequena e passou a ser lenta. Não havia pressa nenhuma no ar, e os dois pareciam entender que aquilo era raro. Era o tipo de cumplicidade adulta que não se força — a mesma que transforma uma casa de praia num refúgio quando o mundo esquece de ser gentil com quem trabalha demais. Beatriz percebeu que estava olhando para a boca dele havia tempo demais para fingir que era distração. Percebeu também que ele percebera. E nenhum dos dois desviou.

Palavras ditas antes do toque

Foi Rafael quem falou, porque alguém tinha que ser adulto de um jeito diferente. — Posso ser honesto? — Pode. — Eu queria te beijar desde o dia do táxi. E não quero te beijar agora se você não quiser a mesma coisa com a mesma vontade. O silêncio que veio depois durou o tempo de uma respiração inteira. — Eu quero — Beatriz disse. — Desde antes do táxi, se serve de consolo.

— Então só uma coisa — ele disse, sério de repente, os olhos na chama. — Se em algum momento você quiser parar, a gente para, sem explicação e sem mágoa. Vale para os dois, a qualquer hora, por qualquer motivo. — Combinado — ela respondeu. — E você me diz se eu passar de algum limite. Combinado outra vez, dessa vez com as mãos — porque consentimento, descobriram os dois, também se fala por toque.

O primeiro beijo foi cuidadoso do jeito que só são os beijos muito esperados. Rafael segurou o rosto dela como quem segura algo que pode quebrar e que ele não quer que quebre, e Beatriz respondeu com aquela urgência que passa décadas engavetada e sai toda de uma vez. A brisa morna continuava lá, prestativa. As velas continuaram acesas, também prestativas, desenhando sombras compridas no chão. Cada toque vinha com uma pergunta muda e recebia um sim mudo, à luz de velas na cobertura onde a cidade inteira dormia sem saber.

Eles voltaram a se beijar com mais verdade e menos cerimônia, e a cobertura deixou de ser um lugar e passou a ser um tempo. A mão dele desceu devagar pelas costas dela, perguntando com o ritmo; o corpo dela respondeu aproximando-se, o que em qualquer idioma significa sim. Em algum momento a blusa dela foi dobrada com um cuidado quase cômico e pousada na mureta, longe da cera das velas; em algum momento a camisa dele teve os mesmos direitos. Não havia plateia além da cidade apagada, e a cidade, educada, fingiu que não via.

Quando o vinho acabou e a cidade continuava apagada, foi ela quem propôs: — Terceiro andar. Ainda tem velas? — Meia caixa. E lençol limpo, porque hoje de manhã eu ainda era otimista. Eles desceram os dois lances de escada na luz de uma vela só, ela na frente, ele atrás com a mão espalmada nas costas dela como se guiasse — o que era bobagem, ela conhecia o caminho, mas era uma bobagem boa de sentir. No apartamento dele, pouco antes do amanhecer, o calor tinha baixado para um nível civilizável e a cidade continuava surda-muda lá fora, como se tivesse saído de propósito.

O que aconteceu depois foi dito antes, combinado antes, desejado por ambos — e por isso foi bom do jeito que as coisas boas são: sem pressa, sem medo, sem ninguém fingindo. Eles se descobriram com uma paciência que o calor permitia e o desejo quase não aguentava. Entre um toque e outro, riram — o que ninguém conta é que riso também é forma de desejo. Quando dormiram, a primeira claridade já rondava a janela e as velas tinham se aposentado sozinhas, derretidas até o fundo dos potes de vidro.

Manhã de verão depois da noite

A cidade voltou com a energia às seis e onze da manhã, num estalo de geladeiras e despertadores que acordou os dois ao mesmo tempo. Rafael levantou-se para fazer café no fogão, que é a única tecnologia que nunca trai. Beatriz ficou olhando o teto dele — um teto novo, com uma mancha de umidade em forma de África — e sentiu aquela paz específica de quem dormiu bem sem ter feito por onde. Quando ele voltou com duas canecas, ela já tinha vestido a camisa dele, o que era uma resposta antes da pergunta.

Conversar de manhã era um teste que eles fizeram sem combinar. Sobre o emprego dela, que tinha prazos mansos e colegas estranhos; sobre o dele, que tinha trinta adolescentes e uma aposta em curso sobre quem estragaria primeiro o projetor. Sobre famílias, de modo resumido, como quem mostra a mala já arrumada. Nada travou. O silêncio que aparecia entre um assunto e outro era do tipo confortável, o que — os dois sabiam — é coisa que não se fabrica. Ou existe, ou é educação mal disfarçada.

— Ainda bem? — ele perguntou, sentando na beirada da cama, a caneca estendida. — Ainda bem — ela respondeu. — E você? — Se eu disser que sim, é pouco. Tomaram café devagar, de novo como quem tem tempo, porque agora tinham o hábito de ter. Lá fora, Lisboa voltava a ser elétrica e apressada, voltava a ser ela mesma; mas dentro daquele apartamento os dois combinaram uma regra nova: nada de luz artificial enquanto durasse o verão. Apenas velas. Apenas o que a noite der.

— Eu não quero transformar isso em episódio — Beatriz disse, segurando a caneca com as duas mãos. — Também não — ele respondeu. — Eu quero transformar isso em hábito. Ela riu do jeito que fazia a cabeça dela jogar para trás, e ele achou que valia a pena ter esperado um verão inteiro por aquela risada específica. Combinaram o óbvio: jantar na quinta, sem velas, com luz normal, para provar que funcionavam nos dois formatos. E combinaram também o não dito — que se um dos dois quisesse recuar, recuaria, e o outro receberia a notícia como quem recebe uma resposta, não como quem recebe uma recusa.

Mais tarde, descendo para comprar pão, Beatriz pensou que cidades inteiras deviam agradecer aos seus apagões. Lisboa tinha outras noites assim guardadas na memória de quem as viveu — como aquela noite de tempestade em que tudo mudou para duas pessoas que sabiam esperar. O pão ainda estava quente. O calor continuava absurdo. E no terceiro andar, um homem de trinta e sete anos regava as begônias com a camisa de ontem, sorrindo para uma planta que não tinha culpa de nada. Foi assim que a noite de verão mais longa de agosto terminou começando.

E se alguém perguntar o que se faz quando a cidade apaga: faz-se conversa, faz-se vinho morno, faz-se cuidado. O resto — o resto se combina.