Mariana encontrou o caderno velho na caixa que trazia do apartamento da mãe. Capa desgastada, páginas amareladas, cheiro de tempo. Era o diário que manteve aos dezenove anos, quando devorava romances jovem adulto um atrás do outro e anotava trechos que a faziam suspirar. Riu sozinha no chão da sala, folheando até encontrar aquela página: uma lista intitulada “O que é romance jovem adulto — segundo eu”. O primeiro item dizia: “É aquele beijo que demora três livros para acontecer e quando acontece a gente para de respirar.”
A lista que envelheceu junto
Leu os outros itens em voz alta, como quem reencontra uma versão de si mesma que quase esqueceu. “É a tensão de querer tocar e não poder.” “É o olhar que diz tudo.” “É saber que o desejo existe, mas ficar na promessa.” Rui apareceu na porta da sala com dois copos de vinho, e ela ergueu o caderno sem pensar duas vezes.
— Tá vendo isso? Eu era romântica idiota.
Ele se sentou ao lado dela no tapete, pegou o caderno e leu em silêncio. Tinha trinta e dois anos agora, ombros largos preenchendo a camiseta cinza, barba fazendo sombra no queixo. Conheciam-se desde a faculdade, tinham sido amigos por uma década, e há quatro meses haviam cruzado a linha que nenhum dos dois planejava atravessar. O problema era que, uma vez atravessada, nenhuma das duas margens fazia sentido anymore.
— Não era idiota — ele disse, devolvendo o caderno. — Era jovem. E tinha razão em parte. A tensão é o melhor pedaço.
— Mas o beijo que demora três livros? — ela fez uma careta. — Hoje eu não teria paciência.
Rui sorriu daquele jeito lento que fazia o estômago dela murchar. O olhar que dizia tudo — a própria lista descrevendo o que acontecia entre eles naquele instante.
O olhar que diz tudo
— Talvez o problema não seja a espera — ele disse, passando o polegar pela borda do copo. — Talvez seja o que a gente faz enquanto espera.
Mariana sentiu o vinho subir pela garganta de um jeito diferente. Não era o álcool. Era a forma como ele olhava para ela quando baixava a guarda — sem a camada de humor que usavam como escudo há tantos anos. Ele colocou o copo no chão e tirou o caderno da mão dela, deitando-o de lado.
— Vamos testar sua teoria — disse ele.
— Qual teoria?
— A de que a tensão é o melhor pedaço. Sem resolver. Sem beijo. Só a tensão.
Ela ia rir, mas ele levantou a mão e tocou a lateral do pescoço dela com apenas a ponta dos dedos. Um toque tão leve que poderia ser acidente se não fosse o olhar. Se não fosse a intenção clara na forma como os dedos desceram meio centímetro pela linha da clavícula e pararam.
Mariana prendeu a respiração. O riso morreu antes de nascer.
— Isso — ele sussurrou. — Isso que você escreveu. A promessa sem a entrega.
A mão dele retirou-se e ela sentiu a ausência como um puxão. A pele onde ele tocara parecia ter própria temperatura, própria consciência. Ele pegou o vinho, bebeu um gole, e olhou para ela por cima da borda do copo com uma calma que era pura provocação.
A promessa sem a entrega
Ela não aguentou. Levantou-se, ele ficou sentado no tapete olhando para cima, e Mariana sentiu o poder daquele ângulo — ele descansando, ela de pé, mas ambos sabendo quem realmente controlava a situação. Rui nunca perdia o controle. Isso a deixava louca.
— Tá achando engraçado? — ela perguntou.
— Tô achando bonito. Você vermelha assim.
Ela se agachou na frente dele, joelhos tocando os dele, e colocou as duas mãos no peito dele. Sentiu o coração acelerado sob a palma e isso a compensou de tudo — ele não era tão calmo quanto parecia. Empurrou com força suficiente para que ele caísse de costas no tapete, e ela montou sobre ele, ajoelhada de cada lado da cintura.
— Minha versão adulta da lista — ela disse — seria: é a tensão de saber que pode, mas escolher o momento.
Rui colocou as mãos no quadril dela e apertou. Não puxou. Não empurrou. Apenas segurou como quem segura algo que tem muito valor e não quer quebrar.
— E quando chega o momento?
— Quando a gente para de fingir que é só amizade.
Ele riu baixo, um som que ela sentiu através do corpo dele.
— Amiga, há quatro meses a gente transa toda semana.
— E mesmo assim a gente finge que não sabe o que é. Que não tem nome.
O silêncio que veio depois tinha peso. Peso de verdade. O tipo de silêncio que romances jovem adulto nunca alcançam porque os personagens têm dezessete anos e o mundo ainda é promessa. Aos trinta e dois, o silêncio entre dois adultos que se conhecem demais é outra coisa. É vulnerabilidade disfarçada de pausa.
O beijo que não demora três livros
Mariana se deitou sobre ele, peito contra peito, e sentiu a respiração dele mudar. O rosto dela ficou a centímetros do dele. Chegava a sentir o calor da boca, o espaço mínimo entre dois pares de lábios que já se conheciam de todas as formas menos dessa.
— Beija mim — ele pediu, e a voz quebrou no meio.
Não foi o beijo dos livros. Não foi suave nem cuidadosamente construído. Foi boca aberta, dentes batendo, língua com pressa e mãos puxando cabelo. Ele gemeu dentro da boca dela e o som percorreu a espinha de Mariana como eletricidade. Ela girou o quadril contra ele e sentiu a resposta imediata, dura e presente sob o tecido fino da calça que ele usava em casa.
— Tira — ela sussurrou contra os lábios dele, e não precisou especificar o quê.
Ele levantou os quadris enquanto ela puxava a barra da calça para baixo, junto com o boxer. O membro dele saltou livre e ela o segurou pela base sem cerimônia, sentindo o peso e o calor na palma. Rui fechou os olhos e a cabeça caiu para trás no tapete, expondo o pescoço — uma linha que Mariana lambeu de baixo para cima sem pensar, só porque podia, só porque ele era bonito demais naquela posição de entrega.
Ela se levantou o suficiente para tirar a própria calcinha por baixo da saia, e quando desceu novamente ele entrou nela em um movimento único, profundo, que arrancou um gemido dos dois ao mesmo tempo. Não houve ajuste nem delicadeza. Houveram dez anos de olhares, quatro meses de sexo e uma noite de verdade finalmente à mostra.
Além da última página
O ritmo começou lento por pura necessidade física — ele era grande e ela precisava de alguns segundos para se acomodar. Mas logo as mãos dele no quadril dela ditaram o compasso, empurrando para baixo cada vez que ela subia, encontrando o ângulo que a fazia gemer mais alto.
— Fala — ele pediu, ofegante. — Fala o que é.
— É isso — ela disse entre respirações cortadas. — Não é promessa. É isso aqui.
O corpo dela começou a tremer antes do orgasmo, os músculos internos apertando ao redor dele de forma involuntária. Rui percebeu e mudou o ritmo, mais rápido, mais fundo, a mão dele descendo entre os corpos para encontrar o clitóris dela e pressionar em círculos exatos que só quem a conhecia há uma década saberia fazer.
Mariana veio com a boca aberta contra o ombro dele, mordendo a camiseta para não gritar, o corpo todo se contraindo em ondas que ele sentia de dentro para fora. Ele aguentou mais alguns movimentos, rítmicos e desesperados, antes de segurar firme os quadris dela e empurrar uma última vez fundo, ficando ali enquanto o orgasmo o percorria em espasmos que ela sentia dentro de si.
Ficaram parados. O apartamento estava em silêncio exceto pela respiração. O caderno velho jazia aberto no chão ao lado deles, a lista de uma adolescente virada para cima.
Rui acariciou as costas dela em linhas longas e preguiçosas.
— Sabe o que é romance jovem adulto de verdade? — ele perguntou.
— O quê?
— A parte que eles não contam. O que acontece depois que o livro acaba e os personagens crescem.
Mariana riu com o rosto enterrado no pescoço dele. Sentiu ele endurecer dentro dela outra vez e suspendeu o rosto com sobrancelhas erguidas.
— De novo?
— A gente tem dez anos de atraso — ele disse, virando-a de costas no tapete com uma facilidade que a fez rir alto. — Precisa recuperar.
O caderno ficou esquecido no chão. A lista de uma menina de dezenove anos esperando beijos que demoram três livros. Mariana, aos trinta e dois, tinha algo melhor: um homem que não esperava nada. Que pegava o que queria. Que olhava para ela como se cada página fosse a última, e lesse devagar mesmo assim.