junho 29, 2026

Conto Erótico: A Cabine de Projeção Depois da Sessão

A Última Sessão Acabou

Há quem diga que toda noite de cinema carrega dentro de si outro conto, secreto, que nenhuma tela chega a contar. Este começou quando a chuva caiu e o último espectador ainda descia a escada de veludo gasto, e Inês ouviu cada gota bater contra a marquesine do Cinema Ideal como se fosse uma conta regressiva. Eram quase duas da manhã. O festival de filme noir terminara, e a sala, com suas duzentas poltronas de encosto alto e vermelho desbotado, finalmente exalava aquele suspiro quente de mil corpos que viveram três dias inteiros dentro dela. Cheiro de pipoca velha, couro, e qualquer coisa mais difícil de nomear — algo que Inês sempre pensou ser o próprio cheiro das histórias.

Ela recolheu os copos abandonados entre os assentos da última fila quando ouviu os passos dele de novo. Rafael não tinha ido embora. Estava encostado à porta da cabine de projeção, os pulsos cruzados, o blazer escuro com aquele desbotado de quem viaja muito de avião. Trinta e seis anos, voz grave de quem fala pouco e observa muito. Fora ele quem restaurara a cópia de O Segredo Além da Neblina, o filme que fechara a noite, e que agora permanecia na sala vazia como se ainda esperasse por alguma coisa.

— Você não foi embora — disse Inês, sem levantar os olhos do copo que segurava. Não era uma pergunta.

— A cópia ainda está no projetor. Eu desmonto de manhã.

— Você pode ter deixado isso para amanhã.

— Eu podia. — Uma pausa. — Não quis.

Inês finalmente o encarou. Havia entre eles, desde o jantar da abertura do festival, uma espécie de fio esticado — invisível para qualquer outra pessoa no cinema, mas que ela sentia vibrar sempre que ele cruzava o foyer. Ela tinha trinta e quatro anos e uma separação recente demais para confiar em fios invisíveis. Mesmo assim, não desviou o olhar.

O Cheiro de Celuloide

Ela subiu até a cabine porque era o que fazia sempre ao fim da noite: conferia o projetor, recolhia as latas, trancava. Rafael a acompanhou sem pedir licença, e o corredor estreito que subia em espiral cheirava a poeira, metal quente e aquele aroma adocicado e levemente ácido da película antiga que ele conhecia melhor do que ninguém. Inês reparou que ele respirava fundo, como quem volta a um lugar amado.

— O cheiro — ela disse, parada no patamar. — Eu sempre quis saber o que é, exatamente.

— Triacetato. É o suporte. Antigamente era nitrato, que era inflamável e cheirava a éter. As cópias antigas podiam pegar fogo sozinhas na cabine. — Ele sorriu, e o sorriso chegou aos olhos antes de chegar à boca. — Havia um perigo bonito nisso.

— Perigo bonito — repetiu Inês, em voz baixa, como se provasse a frase.

A cabine de projeção do Ideal era um cubículo apertado, mal iluminado por uma lâmpada âmbar. O projetor antigo, restaurado, ocupava metade do espaço. Havia um banco único, um cinzeiro cheio de pontas, e uma janela de vidro grosso que dava para a tela branca e vazia da sala. Quando os dois ficaram lado a lado diante da janela, os ombros quase se tocaram, e Inês sentiu o calor dele atravessar a manga fina da blusa.

Um Uísque na Bilheteria

Rafael tirou do bolso do blazer um frasco achatado de metal. — Não me julgue. Restauradores de filme vivem disso. — E serviu duas doses nos copos de vidro que Inês usava para guardar canetas na prateleira. Ela riu, surpresa, e o riso a soltou de um nó que carregava no peito havia semanas.

Beberam em pé, olhando a tela vazia. O uísque era bom, defumado, e escorreu quente pelo peito de Inês como uma promessa. Ela perguntou por que ele restaurava filmes antigos em vez de trabalhar com os novos. Ele respondeu devagar, escolhendo as palavras com o mesmo cuidado com que escolhia os fotogramas: porque o que sobrevive ao tempo carrega uma ferida, e é a ferida que dá sentido à imagem. Inês ouviu e sentiu que ele não estava mais falando de película.

— E você? — perguntou ele. — Por que cinema de bairro, sala única, duzentas poltronas gastas?

— Porque aqui eu decido o que se vê. — Ela girou o copo entre os dedos. — Lá fora, na minha vida de antes, eu decidia muito pouco.

O silêncio que se seguiu não era vazio. Era cheio, denso, o tipo de silêncio que se instala quando duas pessoas param de fingir que não estão se medindo.

A Sala de Projeção

Rafael encostou o copo e se virou para o projetor. Acionou uma chave, e a lâmpada de arco disparou com um estalo, enchendo a cabine de uma luz branca e brutal que logo se suavizou num feixe que cruzou o ar poeirento e foi morrer na tela lá embaixo. Não havia filme: só a luz nua, dançando em partículas de poeira como um pequeno universo em suspensão.

— Eu queria que você visse — disse ele. — O feixe sem imagem. É o cinema antes do cinema.

Inês ficou hipnotizada. As partículas giravam, desciam, subiam. Ela estendeu a mão para dentro do feixe e a luz partiu os seus dedos em ouro e sombra. Rafael, então, fez a única coisa que quebrou a noite inteira: tocou o pulso dela, bem de leve, dois dedos apenas, como se temesse assustar algo raro. Inês não se afastou. O calor daquele toque subiu pelo braço, chegou ao peito, e ela prendeu a respiração.

— Inês — disse ele, e era a primeira vez que ele chamava o seu nome inteiro.

Ela se virou. Os rostos ficaram tão próximos que ela sentiu o hálito de uísque e o cheiro dele — sabão, papel velho, e um resto de café. Inês pensou em todos os motivos para recuar, e descobriu que nenhum deles era forte o bastante. Levantou o queixo e foi ela quem fechou a distância, levando os lábios aos dele.

O Feixe de Luz

O beijo começou lento, cuidadoso, como quem lê um manuscrito frágil. Os lábios dele eram secos e quentes, e Inês sentiu a mão dele subir pela lateral do pescoço e se perder entre os seus cabelos, puxando-os com a pressão exata de quem aprende um instrumento novo. Ela abriu a boca e o beijo aprofundou, e o gosto dele misturou-se ao do uísque até ela não saber mais onde começava um e terminava o outro.

Rafael recuou meio passo e a encostou na borda fria do projetor. O metal vibrava, morno, contra a base das costas dela. Ele desabotoou um, dois botões da blusa dela com uma paciência quase cruel, e beijou a pele que ia aparecendo — primeiro a base do pescoço, depois a clavícula, depois o início dos seios. Inês soltou um som que não planejava, e esse som pareceu soltar algo nele também, porque a mão dele desceu firme pela curva da cintura e puxou o quadril dela contra o seu.

A luz do projetor continuava passando por eles, e a cada movimento as sombras dos seus corpos se projetavam, gigantes e tremidas, na tela branca da sala vazia — como se estivessem, os dois, virando o filme que ninguém veria. Inês abriu os olhos por um segundo e viu a silhueta dos dois lá no alto da parede, entrelaçada, e isso a fez sorrir contra a boca dele.

Quando a Película Cedeu

Ele tirou a blusa dela e a dobrou sobre o banco com um cuidado que a desarmou. Depois foi a vez da saia, e Inês ficou parada sob a luz âmbar da cabine, sentindo o olhar dele percorrendo-a como quem revisa um quadro que resgatou do esquecimento. — Você é mais bonita do que eu deveria dizer agora — murmurou Rafael. E Inês, que tinha medo de elogios desde o fim do casamento, acreditou nele.

Tiraram o resto devagar. Cada peça era uma confiança que se entregava. Quando finalmente não houve mais nada entre os dois, a pele dela encontrou a dele e Inês sentiu o corpo inteiro responder — não só o desejo, mas um alívio antigo, de quem estava há tempo demais sem ser tocada com intenção. Ele a deitou sobre o banco forrado de veludo, a mesma textura gasta das poltronas lá embaixo, e a luz do projetor fazia a poeira dançar sobre os dois como neve.

Rafael a amou com uma atenção que doía de tão rara. Sabia esperar, sabia apertar, sabia parar nos momentos em que ela mais precisava que alguém parasse — e recomeçar exatamente no ritmo em que ela pedia, sem que ela precisasse dizer uma palavra. Inês cravou as unhas nas costas dele e se entregou ao movimento que crescia, e quando veio, veio com o nome dele nos lábios e uma claridade branca por trás das pálpebras que ela jurou ser o feixe do projetor entrando nela.

O Silêncio Antes do Amanhecer

Depois, ficaram deitados no banco estreito, ela de costas encostada ao peito dele, os dois suados e calmos, ouvindo a chuva que não cessara. O projetor ainda zumbia, a luz ainda cruzava o ar, mas agora parecia apenas uma vela acesa para ninguém. Rafael beijou o ombro dela e disse, contra a pele: — Eu volto. Quando você quiser. Para restaurar o que valer a pena.

Inês sorriu, os olhos fechados, e respondeu sem virar: — Eu decido o que se vê aqui dentro. — E pela primeira vez em muitos meses, decidiu também o que queria sentir.

Foram os dois, muito antes do amanhecer, recolher os copos que haviam deixado na bilheteria. A marquesine pingava. A cidade dormia. E o Cinema Ideal, com suas duzentas poltronas vazias e sua tela ainda morna, guardou a única sessão que nunca entraria na programação — a mais bonita de todas as que Inês programou em toda a sua vida.

Leia também: